De forma clara deixamos uma primeira ideia não menos clara: só no País herdeiro dos piores tiques salazarentos se pode falar e celebrar uma Revolução que mais não foi do que uma revolta de contornos corporativistas do Exército, enquadrada e manipulada, ideológicamente, pelo PCP. O que somos, hoje, é a continuação desse triste e vil, apagado episódio da nossa História mais recente. Ao desvario demente e criminoso de 74 e 75, de um PREC de que poucos querem falar ou lembrar, seguiu-se a (a)normalidade desta República de compadrios, interesses, omissões, lobbies, novos corporativismos. O celebrado e aclamado centrão dos interesses. O do bloco central. Esta República burguesa e corrupta, parlamentar, onde votam 40% dos portugueses, de 2 milhões de pobres, de desigualdades gritantes, onde a Reacção é de direita e de esquerda. Como explicar a investida furiosa com que nos querem impingir, por exemplo, em nome de uma pretensa credibilidade tecnocrata, Manuela Ferreira Leite para a liderança do PSD? Este é o País de Abril, certamente. O País onde as decisões são tomadas ao arrepio do Povo, como o provou a aprovação sem referendo do Tratado de Lisboa, nos corredores da alta finança ou nas redacções dos jornais ditos de referência. Este é o País que traiu e fugiu em Angola, por exemplo, que vendeu Timor aos australianos, mas combate agora pelo patrão americano no Afeganistão. O País onde pululam os Soares, mas também os Barroso, os Vara, os Coelho, os Loureiro, os Fazenda, os Belmiros ou os Bavas. O País assaltado pelas cliques dos maoístas de ontem, dos estalinistas de sempre e dos saudosistas à deriva. O País da C.G.D., da PT ou do BCP. O de Cavaco, o que implodiu a Saúde, a Justiça, a Educação. O da escória imigrante, dos maçons, dos gays, do Aborto. Da criminalidade crescente. Da precaridade laboral e dos ordenados de miséria. O do desemprego. O País corporativo, mesquinho, falido, provinciano e novo rico, o das obras públicas e do betão selvagem. O País dito democrático e que é constitucionalmente profundamente antidemocrático. O dos tiques autoritários onde falar de Liberdade é, hoje, apontar claramente a crise real de representação política. O de um Parlamento que nada representa e onde poucos se consideram representados. O País prepotente e incompetente. Analfabeto, de doutores e engenheiros. É falar de élites que apenas lutam pela partilha do seu próprio poder e enriquecimento pessoal, que reduzem o cidadão ao papel de mero eleitor. O País das oligarquias e dos segredos obscuros. O País onde a Democracia é apenas a liberdade de consumir, alguns, cada vez menos, num supermercado político com regras préestabelecidas. Um País sem cidadania. O País dos partidos e dos seus aparelhos, tutelados pela arbitrariedade do Capital. Um País que esquecido do seu Povo, da sua Alma, hipotecou valores históricos da Nação e aniquilou quaisquer direitos sociais, económicos, culturais e políticos. O País de Abril é o País da democracia de deliberação e que se esqueceu da democracia de participação e libertação. Este é o País de Abril, este é o País que nunca será o nosso.
